quarta-feira, 24 de março de 2010

Seria um Oscar merecido?


Por Juliana Monteiro

Por que Sandra Bullock ganhou um Oscar pelo filme The Blind Side (John Lee Hancock)? Essa foi a pergunta que me veio em mente quando pensei em ver o filme. O trailer já tinha me feito pensar bem desse longa do diretor John Lee Hancock, primeiro filme que vejo dele, principalmente porque ele não tem muitas participações como diretor, normalmente. No The Blind Side (ou Um Sonho Possível como foi traduzido para cá), além de diretor, ele também faz o papel de roteirista.

Eu diria que é por esse segundo que daria meus parabéns a ele. Em si, o filme não tem muita coisa a oferecer. É bom um bom filme, confesso, com um assunto que realmente nos emociona, além de ser um fato real. Mas o que realmente salva o filme são os bons diálogos. Também penso que é principalmente por isso que Sandra Bullock ganhou seu primeiro Oscar, ela foi premiada com um papel de suma importância, tocante e principalmente bem escrito.

Além disso, foi talvez a primeira vez que vi Bullock em um filme que não chega nem perto de comédia romântica. É aquela coisa de ter a sorte de pegar um personagem maduro e saber aproveitar isso. Ou então a mudança drástica de visual, uma perua loira republicana católica. O primeiro comentário que escutei no filme foi “ela tá estranha loira”. Realmente, ela está estranha loira, mas isso não vem ao caso.

O que é importante é que o filme se mostrou realmente o que eu esperava ele. Aquele tipo de filme que você às vezes fica com o coração na mão, outras vezes dá uma risada e sempre se emociona com o personagem principal, soltando alguns “tadinho” e outros “que fofo”.

O longa conta a história do jogador de futebol americano Michael Oher (Quinton Aeron), ou “Big Mike” como ele normalmente é chamado, mas deixa claro desde o princípio que nunca gostou do apelido. Abandonado pelo pai, tirado dos cuidados da mãe – devido ao seu uso indevido de drogas – e sem lugar para ficar. É assim que o jovem Big Mike, de 18 anos, começa sua história. Graças a ajuda de um amigo, Big Mike consegue uma bolsa de estudos em uma escola particular por causa de seu único talento: Os esportes. Ou seu tamanho fora do normal.

Big Mike tem um QI de 80 pontos, bem baixo para a idade dele, o que lhe dá grandes dificuldades para aprender. Morando na quadra coberta da escola e só com uma muda de roupa, ele encontra sua futura tutora, Leigh Anne Tuohy (Sandra Bullock) que lhe oferece sua casa, sua família e sua ajuda para que ele possa melhorar, não só nos estudos, mas como também na vida.

A partir dai o sentimento familiar fica cada vez mais forte entre Big Mike e Leigh Anne que é obrigada a passar por todos os tipos de provas e reprovações por ter adotado um garoto negro para sua feliz casa republicana.

A história é tocante. Afinal, quem não fica um pouco emocionado com uma história que envolve preconceito, mudança, superação e realidade? Esse é mais uma série dos filmes que fazem muita gente repensar algumas coisas da vida, mas só algumas.


terça-feira, 23 de março de 2010

B.B King - O verdadeiro Rei


Já se passaram 85 anos e ele ainda tá inteiro e acrescento um "graças a deus" nessa frase. Ano passado tivemos Chuck Berry e Jerry Lee Lewis, esse ano tivemos B.B King mais uma vez em terras tupiniquins.

No dia 19 de Março (sexta-feira passada) um B.B. king animado se apresentou no Via Funchal. Quem disse que ele está velho? Ele mesmo disse em alto bom som que sua turnê não é uma turnê de despedida e eu acredito nele. B.B King tá ainda inteirão, a idade veio, a barriga considerável já foi embora e trouxe alguns ossinhos a mais, mas isso não é problema, o blues ainda sustenta sua alma e a música ainda corre em suas veias.

Riley Ben King, esse é o nome do mestre do blues, nasceu em Mississippi numa plantação de algodão e como acontece com os grandes mestres, a vida não foi fácil. B.B King já vivia sozinho desde os 9 e com essa alma de quem já sofreu bastante, saiu pelo mundo querendo virar músico. Alguém duvida que ele tenha conseguido?

Hoje ele é considerado o rei do blues e já teve grandes parcerias, como com outro grande nome do blues, Senhor Eric clapton e fizeram juntos um CD sensacional chamado Riding With de King, lançado em 2000. O cd conta com uma lista genial e bem movimentada, com os melhores lances do blues, como a famosa "Come Rain or Come Shine", "Riding with the king" e a movimentada - uma das minhas prediletas - "I Wanna Marry You". Se um guitarrista genial já é bom, imagina então dois?

O CD ainda conta com a música que levou B.B King ao sucesso, Three O'Clock Blues, é daquelas músicas longas que te fazem viajar por algum tempo e quando acaba, você ainda tá em outro mundo.

Foi mais uma vez um prazer ter o bluesman e sua guitarra Lucille. Ele continua com o mesmo humor de uma criança, o ritmo de um velho blues e seu charme de jovem.

Terra Música
Vírcula UOL
Foto: Album de fotos Abril


segunda-feira, 22 de março de 2010

Livro - O vendedor de armas

Por Juliana Monteiro

Compararam Thomas Lang com um 007 moderno. Discordo. Thomas Lang é infinitamente mais engraçado, irônico e inteligente que aquele velho chamado James Bond. Talvez meu cérebro esteja um pouco viciado com a imagem do Dr. Gregory House, mas era sempre nele que pensava quando eu lia O Vendedor de Armas. Talvez a ironia e a inteligência estejam no sangue de Hugh Laurie e deve ser por isso que as livrarias se tornaram um caos quando Laurie deu uma folga ao médico e apresentou ao público seu lado ex-militar. A primeira edição do O Vendedor de Armas esgotou em poucos dias, até parecia que a J. K. Rowling tinha lançado mais um livro, mas não, era somente Laurie mostrando que manda bem em muita coisa mesmo.

Com 288 páginas muito bem escritas, O vendedor de Armas conta a história de um britânico ex-militar fanfarrão que recebe uma proposta milionária para assassinar um empresário americano. Mas Lang é daquele tipo de cara que pode estar na merda, mas não vai fazer algo que ele acha errado, então não aceita a proposta e até vai atrás do empresário para alertá-lo. E é a partir dai que a vida dele se torna um caos completo.

Primeiro ele cria uma paixonite aguda pela filha do empresário, Sarah, uma mulher bonita, inteligente e perigosa. Depois é acusado de tentativa de homicídio, mesmo sem ter aceitado o trabalho, e ai começa uma série de complôs onde ele sempre é o último a saber, mas o primeiro a se safar. Com planos mirabolantes, Lang começa a se enfiar no mundo dos vendedores de armas, muitas vezes se ferrando, para ser sincera com você, ele só se ferra! Mas tudo bem, Lang é tipo imortal e é bem engraçado vê-lo se ferrar e depois se safar e dai se ferrar de novo.

Eu não esperava tanto de um livro como esse, quando li a primeira página pensei "é muito confuso, vou me perder", e não vou mentir para você, o livro realmente é confuso em alguns momentos, são muitos nomes, muitas pessoas e muitos complôs complicados, além disso, todo livro que é escrito em primeira pessoa pode sofrer do problema da confusão. Os pensamentos de Lang sempre variam e vão da água para o vinho, de um assunto x para um assunto y e você fica um pouco fora dos eixos por um momento. Mas é fácil resgatar esse eixo, além disso os comentários irônicos de Thomas dão a graça maior ao livro.

O livro, por incrível que pareça, não está num preço absurdo. Está numa base de 38 reais, às vezes para mais, às vezes para menos. E o que eu estou torcendo agora é para daqui uns anos eu esteja falando a adaptação para filme, já informo que isso é quase certo, não só na minha vaga opinião de como esse livro se tornaria um ótimo filme, mas como também nos pequenos boatos que informam que Hugh Laurie já pensou nessa possibilidade.

domingo, 21 de março de 2010

Aceite o Mistério

Por Guilherme Nasser

O novo filme dos Coen é cínico.

Carregado de um humor afiado e poéticamente trágico, “Um homem sério” chega com classe: Indicado a dois oscar (Melhor filme e Melhor roteiro original).

A comédia gira em torno de um paralelo entre conceitos morais de algo exterior – no caso o judaísmo - e a vida sem doutrinas e maiores consequências.

A frase que me veio a cabeça logo após o final do filme foi a de Rosseau: “ O homem nasce bom e a sociedade o corrompe”

Garry Lapnik, é um professor íntegro, pai de família que começa ver sua vida desmoronar em problemas. Sua mulher abertamente lhe comunica sobre o envolvimento dela com um amigo da família e o expulsa de casa. Garry deixa a casa e tem que levar junto para um motelzinho barato seu irmão problemático.

Seus filhos são adolescentes normais, eu diria. Ele é viciado em maconha e ela um garota fútil que só pensa em lavar o cabelo.

Garry então se depara com o maior problema do filme, o suborno de um aluno coreano reprovado em Física. A clássica ironia dos diretores. E é aí, que ele precisa rever seus conceitos e começar a quebrar todo o moralismo judaico envolto em sua integridade até aqui.
O roteiro é muito bom e é grande candidato ao Oscar, mas acredito que não ganhe, e que ele fique nas mãos do Tarantino.

No desempenho técnico do filme, normal, bem feito, mas nada demais, sem marca autoral de direção, estético ou fotográfico. Os irmãos Coen são ótimos roteiristas e bom diretores.
Diferente da última comedia “Queime depois de ler”, “ Um homem sério” é calmo, inteligente, ácido, o que se aproxima mais a “Matadores de Velhinhas”.

Observamos que Garry, agora numa visao mais sociológica, mas sem pretensões, por favor, é um homem doutrinado , que tem o superego afiado, que se pune em pensamento e que precisa ser “ruim” na concepção do personagem para dar um jeito em seus problemas.

Talvez o grande segredo do filme e da vida de Lapnik, é a frase dita pelo Rabino Junior – ironia presente novamente no roteiro – quando aconselha Garry dizendo que precisa enxergar a vida de uma nova perspectiva.
Um ótimo filme.

Quanto a cena inicial, não pense que está no filme errado, apenas aceite o mistério.

LIVRO - De Cuba Com Carinho


Por Juliana Monteiro

Não é exatamente um livro político como muitos estão pensando. Diria que é mais um livro humano. "De Cuba, com carinho" segue os posts do Blog da cubana Yoani Sánchez, que fez parte do que se chama "geração Y", uma época onde todos os nomes tinham que começar com Y em Cuba.

Sobre seu blog, vocês podem dar uma olhada no Generación Y seguindo por aqui: http://www.desdecuba.com/generaciony/, é um blog bem legal, onde Yoani fala de seu dia a dia em Cuba, das coisas que passou e de como realmente é por lá, além do que lemos em jornais ou que vemos em outras mídias.

O mais interessante sobre isso é que o livro que segue os posts do blog é bem recente, então é interessante você passar pelas páginas daquele livro fino de somente 204 páginas e ler sobre coisas que há poucos meses tinha lido nos jornais. Descobre também fatos que você nunca pensava que fosse verdade, como a influência Brasileira, ou melhor, a influência das telenovelas em Cuba. Algo que eu, particularmente, nunca ia adivinhar.

O livro não tem exatamente uma ordem, como qual postagem você deve ler, seguindo por ordem de data, na realidade é escolhido, digamos, por plena vontade de quem quiser ler. Pelo menos é assim que eu encarei quando o li.

Yoani relata o seu cotidiano de maneira muitas vezes irônica, dando pontos de vista e mostrando a dificuldade de manter um blog como o seu, como ela teve que se passar por estrangeira para conseguir acessar a internet. como o preço para isso é sempre caro, entrar sem ninguém saber num hotel só para "gringos", pagar pela internet e ser rápida o suficiente para postar o que precisa, sendo que muitas vezes os portais que ela precisa acessar para isso são barrados pelo governo.

Também fala dos problemas de conseguir sair de Cuba, algumas pessoas conseguem, outras são obrigadas a ficar por lá presas e numa situação horrível para sempre, ou pelo menos até o Governo decidir que talvez ela possa sair. Mostra como o preço da comida sobe cada vez mais e que algumas leis são simplesmente enganações sem sentido, como a lei que permite que cubanos tenham dois empregos. O que funciona? Nada. Dois salários simplesmente significou reduzir os salários e equivalerem a um antes dessa lei.

Enfim, não há arrependimento. Pelo menos não ao ler esse livro, é quase impossível de não gostar. Mesmo não mantendo uma história recorrente, no final todos os post estão de um jeito ou de outro, muito mais relacionados que qualquer romance com capítulos.
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NOTA: Gostaria de me desculpar pela grande ausência no Blog, estamos tentando montar uma nova equipe para que possamos continuar o blog como antes. Informo com grande tristeza que Thiago Mattar, que cuidava não só de Música Brasileira, mas também praticamente tudo que gostasse sobre cultura, saiu da equipe. Estou agora em busca de alguém disposto a escrever sobre Música Brasileira, assim que encontrar, tenho certeza que o blog voltará com a mesma força de antes.

DVD – O Jovem Frankenstein


Por Thiago Mattar

As comédias de Mel Brooks são ácidas, cáusticas e possuem um refinamento crítico ímpar. Mas, ao mesmo tempo, trazem o charme pastelão das clássicas performances humorísticas de Peter Sellers, Jacques Tati, Chaplin e Buster Keaton. São inúmeras referências que Broks traz na bagagem. A mais interessante é a influencia dos clássicos filmes de terror, os primeiros filmes de mistério da Universal dirigidos por James Whale e datados do início dos anos 30. Em O Jovem Frankenstein (1974), a minha indicação de hoje, há claras citações das sequências mais emblemáticas de Frankenstein (1931) e A Noiva de Frankenstein (1935). O roteiro é recheado de sátiras aos maiores clichês do gênero e é cultuado como uma das sátiras mais bem sucedidas da história do cinema, tanto por sua fotografia esplendorosa em preto e branco, como pelas antológicas interpretações e a apurada direção de arte, que teve a felicidade de utilizar a maior parte das geringonças elétricas dos clássicos filmes da Universal, os mesmos aparelhos futuristas que antes foram fotografados pelas lentes de James Whale.

Convenhamos, um bom filme envolve sempre grandes personagens e um talentoso elenco para dar vida (“Give my creation... life!”). Nesse caso, Mel Brooks acertou em cheio na direção dos atores. Gene Wilder, um dos maiores talentos de seu tempo, um comediante aclamado pelo sarcasmo e ironia de seus personagens, recria um Dr. Frankenstein de temperamento alucinado e histérico capaz de arrancar gargalhadas dos espectadores a todo o instante em que aparece – quase sempre aos berros – na tela. Já o Monstro, portador de um cérebro anormal em busca de amor e que, ao decorrer da história, vai aprendendo a falar e se expressar como os outros, ganha a interpretação sensível de Peter Boyle. Mas o destaque mesmo é Marty Feldman na pele do ajudante de cientista louco, Igor. A interpretação de Feldman é exagerada, carregada de trejeitos e maneirismos que fazem referencia aos ajudantes criados por Bela Lugosi em O Filho de Frankenstein (1939) e o teatral Reinfeld interpretado pelo sempre coadjuvante Dwight Frye em Drácula (1931). A belíssima trilha sonora original fica a cargo do genial John Morris. O músico realizou uma vasta pesquisa para compor como um compositor de trilhas daquela época faria, usando os instrumentos certos para criar o ambiente misterioso e soturno do filme.

Não deixe de conferir esse marco do cinema satírico! O melhor é que você encontra esse DVD por um preço baixíssimo nas lojas de departamento. É só garimpar!


Os Monstros de Jonze


Por Guilherme Nasser

Baseado em um livro infantil, escrito em 1963 por Maurice Sendak e publicado no Brasil somente no ano passado, de 40 imagens e 9 frases, Onde Vivem Os Monstros, é uma análise um pouco mais densa sobre a maturidade das crianças.

Eu estava indo ao cinema e acabei pegando uma chuva como era de se esperar nessa época aqui em São Paulo, faltavam 10 minutos para o filme quando cheguei ensopado a bilheteria e logo depois fui me trocar no banheiro (a sorte era ter outra roupa na mochila) e entrei esperando me divertir. Na sala umas 10 pessoas, entre elas, 4 senhores espalhados pelo cinema sozinhos e prestando muita atenção nos trailers... Ah eu tinha comprado uma fanta laranja antes de entrar. Spike Jonze, diretor do grande filme Quero Ser John Malkovich, começava bem, a "opening scene" foi grandiosa. Pronto, já estava me divertindo...

O livro de Sendak, na época foi alvo de críticas ofensivas e chegou a ser tirado das livrarias em alguns lugares, pois é um livro anormal ao universo infantil, ele não tem uma "moral da história" e não chega perto de querer educar as crianças em bons modos cristãos. Enfim, o livro trata a maturidade de um jovem que é mandado para a cama sem jantar e cria uma floresta em seu quarto, onde lá é criado um mundo novo onde vivem monstros e ele é o rei. No filme, é claro, Jonze muda alguns aspectos da história e escreve um roteiro "quase original" vamos dizer assim, mas não tira a essência do livro. A verdade é que Jonze explicitou a rebeldia, a solidão, o mergulho na mente de uma criança altamente criativa que se sente ignorada. A neve no começo do filme ajuda a mostrar que nada ali é divertido, além do iglu que Max constrói para tentar se divertir, ao ser ignorado por sua irmã, ele tenta chamar a atenção dela e de seus amigos jogando bolas de neve e começando uma "guerra" e é repreendido pelos meninos mais velhos que destroem seu iglu. Depois disso Max sente ciúmes da Mãe e seu novo amigo, e tentando chamar atenção mais uma vez é repreendido mais uma vez, e então foge de casa. E o que mais tem no filme é Max correndo e a câmera na mão o acompanha (aliás a câmera na mão é um dos pontos técnicos mais altos do filme). É então que Max foge pelo mar com seu barco, enfrenta grandes tempestades e chega a uma aldeia no alto de uma montanha que escala. Lá é onde vivem os monstros e logo Max se torna rei daquele lugar. É claro que existem alguns simbolismos que não passam despercebidos, e o mais importante é a personalidade de cada criatura que nada mais são do que manifestações da personalidade do garoto. Carol é naturalmente com quem Max mais se identifica, pois ele é o egocêntrico da turma, o comandante, o chefe até agora, e que quando é desconfiado pelos outros se mostra frágil e orgulhoso.

Um conto de fadas anormal, estranho, e muito bem executado pela equipe de Jonze, o fotógrafo Lance Acord, o mesmo de Being John Malkovich, dá a esse mundo fantástico uma naturalidade e deixa tudo que vemos, poético, como deve ser.

Na música, Karen O, ex namorada de Jonze, e vocalista do Yeah Yeah Yeahs, deixa o filme mais emocionante ao emplacar as canções com crianças cantando junto, nos momentos de mais ação e liberdade das cenas. A escolha do ator foi um processo que Jonze demorou para terminar, e no finalzinho acabou achando essa raridade, Max Records, é um ator brilhante, seguro, soube criar uma relação insubstituível com a história e com os atores. Max Records é comparado, por seu estilo de atuação frente às câmeras a Sean Penn, mas aí é outra história. Ótimo ator e certo para o papel.

Onde Vivem os Monstros é absolutamente recomendado, e para todo mundo, pois como diz o trailer: "dentro de nós está tudo que você já viu, tudo que você já fez, todos que você já amou. Há um dentro de todos nós".

O filme, como o livro, é composto por metáforas da maturidade infantil e de como ela se desenvolve enfrentando problemas constantes. Os monstros são os sentimentos de Max, e ele ao tentar dominá-los, virando rei, acaba saindo derrotado, e é quando ele percebe que não existe mais ali, lugar para ele.

Terminou o filme e meu cabelo estava seco. E ao olhar pra trás, vi um senhor que sentado sozinho, enxugava as lágrimas.

De dentro para fora/ De fora para dentro - MASP Urbano


Por Juliana Monteiro

Confesso que a principio fui ao MASP para poder escrever sobre a exposição do Chagall, mas quando cheguei lá e não vi nada de mais que me desse vontade de escrever a favor e incentivá-los a visitar, desisti. Foi pela minha surpresa e falta de informação que acabei caindo no subsolo do MASP e encontrei um dos ambientes mais legais que vi em exposições.

Não é de hoje que sou apaixonada por grafite, mas a cada dia essa paixão se torna em um amor delicioso, a exposição que se encontra no MASP desde novembro do ano passado, termina agora esse dia cinco de fevereiro, mas ainda dá tempo de dar uma olhada e se deliciar com a "De dentro para fora/ De fora para dentro". Os curadores Mariana Martins, Baixo Ribeiro e Eduardo Saretta conseguiram trazer o ambiente urbano para dentro do MASP e com a ajuda dos artistas fizeram um espaço vazio em algo totalmente revolucionário.

Na Galeria Clemente de Faria foram colocadas várias paredes falsas para aquele movimento artístico, até o chão foi utilizado por um dos artistas. Ramon Martins foi um dos que usaram o chão para grafitar, a imagem começa numa parede falsa e parece que vai derretendo até formar imagens pelo chão da galeria. Titi Freak, um dos grafiteiros de São Paulo, foi o que mais me surpreendeu, fazendo o espaço dele se tornar uma explosão de imagens lotadas de cor e desenhos variados, dentro da parede falsa criada para ele, você pode ver pequenos desenhos contando cada um a sua história.

Stephan Doikschinoff, assim como o nome complicado, também fez um espaço complicado. Detalhista e perfeccionista, transformou uma parede em um conto popular, usando vários materiais para suas obras, até livros antigos onde estampou seus desenhos pelas páginas. Quando você entra em sua sala, se sente numa igreja, só uma pessoa consegue entrar por vez para poder reparar nos detalhes do ambiente, com os livros deitados pelo chão, seguindo o caminho para o altar artístico e bandeirinhas como se fossem de festa junina presas no teto.

Acho que um dos mais conhecidos pelos trabalhos urbanos que faz pode ser o Zezão, quem nunca viu seus grafites pelos tuneis de São Paulo é porque nunca abriu os olhos quando passava por eles. Na galeria Zezão fez mais do que sua marca registrada, fez uma montagem enorme numa parede, com pedaços de madeira e colagens, usando todos os tipos possíveis de materiais.

Dentro da exposição ainda dá para ver Carlos Dias, com seus desenhos estranhos e cheios de cor e colagens pelas paredes, além de Daniel Merlim que fez em paredes falsas seus stencils mostrando com mais força a ideia de ambiente urbano na exposição.

Para finalizar, quem quiser ainda conferir a exposição, tem uma sala explicando o trabalho de cada artista e um documentário de como foi realizada a exposição, como os artistas trabalharam para sua construção e você também pode escrever, desenhar ou fazer o que bem entender nas paredes dessa sala com giz daqueles de lousa.

Lembrando que a exposição vai até o dia 5, ainda dá tempo de dar uma olhada!


Foto: Gal Oppido

Ed Motta fez Piquenique pra você devorar!

Por Thiago Mattar

Tá afim de convidar uns amigos para uma festa na sua casa ou apartamento e tá meio sem ideia de qual som deixar rolando? Bom, você deve se lembrar de um cara chamado Ed Motta. Fazia anos que ele não lançava um disco digno de figurar no gênero pop. Pois bem, em 2010 vamos ouvir muito falar dele.

Graças ao seu último trabalho, Piquenique, lançado recentemente pela Trama, o multi-instrumentista retoma sua posição de destaque no cenário da música brasileira. Com masterização em NY, Piquenique é um apanhado de doze canções inéditas compostas por Ed em parceria com sua esposa, Edna Lopes, menos a faixa “Nefertiti”, com letra de Rita Lee.

O conceito desse novo trabalho é o mesmo de um piquenique no parque, cada faixa traz um pouco: um sanduíche de funk com soul, um suco groove acompanhado por algumas gotas de r&b para adoçar, até Maria Rita nos serve um pouco de samba rock dividindo os vocais em “A Turma da Pilantragem”.

Nessa mistura divertida de sons, inspirada em quadrinhos e cinema noir, Ed se renova nas batidas eletrônicas e, ao mesmo tempo, volta a ser aquele gordinho suingado que estourava nas paradas de sucesso dos anos noventa. Durante muito tempo não ouvíamos nenhuma de suas músicas no rádio, na TV ou nas pistas. A voz poderosa de canções como “Fora da Lei”, “Colombina”, “Manuel”, “Vendaval” e “Tem Espaço na Van” parece estar de volta aos holofotes nacionais, em definitivo, com um frescor de pura novidade.

As canções novas são fórmulas infalíveis, doses gostosas de batidas certeiras distribuídas perfeitamente num espaço de três a quatro minutos. Os vocais são o foco, mas sem que as firulas - scat vocals, estilo inconfundível e característico desse artista - atrapalhem o entendimento e apelo imediato das letras.

Após sucessivas experiências com o jazz em discos cult como Dwitza, Aystelum e Chapter 9, que focavam no instrumental e nos solos; Piquenique chega para tocar nas pistas, estrelar nas rádios e não desgrudar dos seus ouvidos.

Ficou curioso? Você pode ouvir e baixar gratuitamente o Single Virtual "Mensalidade", segunda faixa do CD, aqui:

http://albumvirtual.trama.uol.com.br/flash_download.jsp?id=1128131103

ESPECIAL GUS VAN SANT #3 - PARANOID PARK


Por Guilherme Nasser

Para encerrar o especial e deixando de lado a "death trilogy" de Gus Van Sant, vamos falar sobre seu filme de 2007, Paranoid Park (vencedor de Cannes)

Paranoid Park é um filme baseado no livro homônimo de Blake Nelson, e conta a história de um jovem adolescente skatista que acidentalmente mata um segurança.

É o longa que Gus Van Sant mais trata da alienação jovem e as sensações que imperam na cabeça dos adolescentes. É um filme minimalista de baixo orçamento e claro não atores.

Paranoid Park é o nome dado a pista de skate onde os que lá estão, estão para esquecer por algum momento os problemas que cercam sua vida, e com o jovem Alex é a mesma coisa incluindo a vontade de perder o medo de um local considerado ameaçador por ele.

A narrativa mescla o passado e o presente e a construção não é comum como em filmes de assassinato que nos preocupamos em saber como solucionado foi o crime, ou como ele procedeu a partir do momento em que ele foi descoberto. O enfoque é nas atribuições em que a mente alienada e desconectada com o presente são mostradas através das cenas em que não apenas observamos as ações dos personagens, e quase não ouvimos relatos ou demonstrações de sentimentos por palavras. Paranoid Park é assim, um local onde existe ação, sentimento, nostalgia, tempos, e nenhuma relação entre os lá presentes. As cenas, acredito eu, que sejam em super 8, em que são mostradas as performances dos skatistas na pista, é o mais realista possível, como um vídeo que podemos encontrar na espn ou algo assim. Talvez essa interação entre o comum e a ficção nos deixe a impressão de que estamos todos vulneráveis a certas consequências que pagamos por enfrentar nossos medos.
Alex não mantém uma relação com as pessoas à sua volta, claramente vemos ele sozinho lutando contra suas deficiências morais, e seus conflitos internos. A única relação que ele mantém estável é com a carta onde ele conta o ocorrido, mas que não sabemos pra quem será mandada, ou se alguém um dia lerá aquilo, e o não interessa também.

Gus Van Sant usa com genialidade a música, as sequências longas, é claro, os enquadramentos - ponto novamente para o fotógrafo Christopher Doyle - e o mais bonito de todos em PP, a câmera lenta. A melhor cena do filme e a que mais nos deixa agoniados com aquele sofrimento injusto é a do banho. A câmera lenta mostra Alex claramente sozinho contra a agonia interna de ter cometido um assassinato.

Paranoid Park está na minha lista dos melhores do século 21, com certeza, é o filme mais doce, mais triste, não propriamente como a palavra oferece seu significado, pois bem. Genial e nos mostra quão vulnerável somos, e como alguns detalhes nos prendem ao nosso maior inimigo, nós mesmos.

Aqui, eu encerro o especial sobre esse fantástico diretor. Espero que se você gostou dos textos, assista às obras maravilhosas de Gus Van Sant, e prepare-se para conhecer o cinema mais realista de nossos tempos. Bom filme.

A Insustentável Leveza do Ser - Milan Kundera


Por Juliana Monteiro

Eu demorei mais do que esperava para escrever sobre esse livro, principalmente porque é um livro que eu tive uma expectativa absurda quando ouvi falar e a minha opinião aumentou ainda mais quando eu resolvi ler. Graças a isso o medo de falar besteira quando eu escrevesse sobre ele também foi grande, mas tomei coragem e cá estou eu.

A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera, nos leva para 1968, em Praga e em Zurique, no meio de um ambiente de uma Tchecoslováquia invadida pelos russos e toda a tensão política que se estendeu por entre as décadas que Kundera leva seus personagens. São quatro personagens e cada um com uma história diferente. Em minha mente eu comecei a pensar que esses quatro personagens formam uma única personalidade que pode ter um homem, ou uma mulher.

Enquanto Tomás é um médico jovem e atraente, sem dizer muito paquerador e mulherengo, Tereza, a mulher por quem ele se apaixona, é ainda mais jovem, frágil e feminina, que imagina um amor único, mas que começa a aceitar as traições de seu Tomás. O mais atraente sobre Teresa é o fato dela ter nascido em um ambiente que não existia qualquer tipo de amor, uma mãe nojenta totalmente sem classe e sem educação, mas isso não impede que Teresa cresça com uma vontade ao contrário do que sua mãe lhe educou, provavelmente por essa educação grotesca é que Teresa tem essa paixão pela vida de uma maneira mais pura e inocente.

Tomás se perde nessa inocência que ele próprio não consegue entender, tenta, sem chances, acabar com o sofrimento de sua mulher parando de trair, mas seus instintos falam mais alto e sua vontade pela vida lhe faz entrar em romances de só uma noite, o que deixa Teresa a cada momento mais perturbada, mesmo que ela não queria assumir isso a ele, por amá-lo tanto, o aceita do jeito que é, mesmo que tudo isso lhe dê farpas no coração.

Entre esses dois personagens que vivem um romance diferente do que costumo ler em livros, existem outros dois ainda mais complexos. Eu não consigo encontrar realmente um personagem que possa dizer como favorito, mas tenho um certo carinho especial por Sabina que, para mim, tem uma das personalidades mais complexas e apaixonantes.

Sabina é basicamente o uma versão feminina de Tomás e durante muito tempo foi a sua mais duradoura amante e amiga. Mas os momentos se passam e Sabia não é do tipo de mulher que se mantém em um mesmo lugar por muito tempo, sua educação também lhe trouxe opostos, enquanto seu pai era um ditador e lhe obrigava a seguir caminhos que, para ela, eram totalmente errados, Sabina se rebela e segue sua vida sem destino, uma artista sedutora que atrai todos os tipos de homens e depois os descarta.

Não foi diferente quando Franz se apaixona por ela. Franz é um dos personagens mais fracos, porém um dos mais fáceis de se entender e identificar, sua vida é chata e monótona, casado e com uma filha, mas tanto sua mulher quanto sua filha são seres que ele não compreende e tenta fugir a cada momento. Um professor que cansou de sua vida correta e ajeitada e leva um choque quando conhece uma pessoa totalmente oposta a tudo que ele vê, no caso Sabina, que o leva para um mundo que ele se apaixona a cada momento, ele está tão envolvido com esse novo ambiente que chega a considerar Sabina como sua deusa, sua guia para todos os momentos, até mesmo quando ela o abandona por perceber que pode chegar a amá-lo, coisa que ela foge a todo momento, considerando sua vida uma contínua traição e aceitando esse seu destino que ela não considera nem um pouco cruel.

Entre esses personagens que constroem uma vida complexa, existe a complicada definição filosófica que Kundera tenta estabelecer sobre a leveza e o peso. A leveza é considerada uma vida que se segue sob o teto da liberdade descompromissada, um não-engajamento, não-comprometimento com situações quaisquer, no caso o fato da guerra que está se envolvendo pela Tchecoslováquia, onde Tomas não pretende se envolver, tanto quanto ao modo que ele segue seu relacionamento com Teresa, até o momento que ele se compromete a ela, descobrindo o valor do peso, além de ver sua mulher se envolver nas batalhas contra a invasão russa, um estilo de peso, o comprometimento, o engajamento que até então ele negava.

O livro também ilustra a visão de eterno retorno usado por Nietzsche, por acaso uma das primeiras coisas que Kundera fala em seu livro, sobre como as situações existenciais podem se repetir indefinidamente no tempo, ou seja, você faz as mesmas coisas para sempre.

Se esse foi o romance mais inacreditáveis e fantásticos que eu já li em minha vida? Tenho que assumir que sim, dificilmente encontrarei um livro que me prenda tanto e que me deixe tão agoniada graças a esses relacionamentos tão complexos e reais, mostrando que o amor nunca será algo perfeito e sim uma leveza pesada que nos dá vontade de fugir quando parece estar certo e quando se é perdido, lhe dá vontade de correr atrás, entre guerras, entre idealizações, entre tudo que alguém pode criar para lhe impedir, mesmo que no final não alcance de fato esse amor imperfeito.

Se tem um livro que eu definitivamente recomendo, acima de qualquer outro que já li até então, é este. Deixe sua mente ficar um pouco mais perturbada com os pensamentos de Kundera.

ESPECIAL GUS VAN SANT #2 - ELEPHANT


Por Guilherme Nasser

15 minutos é o tempo em que todo o filme se passa. Elephant é o retrato do massacre de columbine, mas o retrato artístico, se é que podemos dizer isso de um massacre. O negócio é que Gus nesta película prepara o expectador para uma explosão de sangue no final.
Elephant nada mais é que a absorção de problemas e dúvidas sobre si mesmo que giram em torno de cada personagem. O "american way of live" pressurizado em cada jovem que vivenciou toda aquela narrativa é o ponto x do filme.

Os estereótipos dos adolescentes americanos são os personagens desta história. O jogador de futebol americano bonitão, que namora uma menina, certamente fútil e exagerada, e que causa ciúmes em outras meninas, que passeiam pela escola, falando de shoppings, dietas e roupas da última moda. Garotas que almoçam e antes de ir embora, passam para devolver à comida em um vaso sanitário. Um garoto que observa tudo que acontece, é quieto, amigo de um outro que é um pouco mais descolado, o fotógrafo. A garota feia, que trabalha na biblioteca e sofre os atentados de repressão sobre não se encaixar na normalidade do que é ser uma garota americana. Os gays, claro, que se juntam para discutir o preconceito escroto dos estadunidenses, que apesar de ainda estar formando seu caráter, já carrega isso através de uma cultura social e familiar, de não conviver com as diferenças, que vêm implicita em sua personalidade. Os garotos Alex e Eric os que mais absorvem essas diferenças e que são protagonistas da chacina mais tarde, nada mais são do que vítimas. Segundo Gus, todos são vítimas, todos sofremos a pressão de ser alguém que precisamos impressionar os outros, o ser que somos é definido pelo que fazemos, e não como deveria ser, ao contrário.

Van Sant como em seus outros filmes posteriores, utiliza o ponto de vista, cenas são vistas de diversos ângulos, o que tira o foco em algum personagem, ou alguém que rege a história. Na verdade a câmera é o que rege a história, é como se o expectador regesse a história, nós acompanhamos os problemas, e nos sentimos na pele de cada um que ali está. No começo do filme temos um plano sequência gigantesco, com a câmera seguindo o jogador de futebol, e ao longo do filme temos essa câmera presente também. O que chega a nos dar impressão de um jogo de video game, que estamos jogando aquilo tudo em primeira pessoa. O filme realista de Gus Van Sant não é violento, não é tenso e não é sensacionalista, mesmo se tratando de um massacre, vemos aquilo tudo com uma certa tristeza. Um peso no coração e uma espécie de angústia que nos deixa pasmos, tristes e os assassinatos (14 alunos e 1 professor) são consequências de toda essa carga de emoções. Acaba de tornando normal e simples. O motivo de ser simples é óbvio. Os personagens Eric e Alex, não pensam duas vezes, eles não tem medo, aquilo é a vida deles. Aquilo é o que eles são, e o que eles são definem o que eles fazem, como deve ser.

O título do filme é baseado em duas coisas, a primeira é uma homenagem ao diretor Alan Clarke que fez um filme chamado Elefante, sobre a violência religiosa na Irlanda, no filme é usada a expressão "elefante na sala de estar" que significa as coisas que incomodam as pessoas, mas que elas fazem questão de ignorar. A outra menção é a uma parábola budista que conta a história de alguns monges cegos que ao tocar em determinadas partes de um elefante, e como nenhum conhece o animal e apenas tocam uma parte dele, cada um chega a conclusões diferenciadas sobre como um elefante parece ser.

Eu não vou falar detalhes sobre o erro de continuidade que existe no filme, porque acho que é uma areia no sapato de todos que amam o filme, inclusive eu. Afinal não tem como não amar Gus Van Sant, e seu filme Elephant. Cannes, em 2003 amou o filme e Gus venceu a palma de ouro.

Elephant é singular.

Música Internacional - O fado de Mísia

Por Thiago Mattar

O fado é tradicionalmente a trilha sonora de Lisboa. Nascido entre os bairros da capital portuguesa em meados do século XIX, o ritmo é fruto da mistura atípica entre a música africana, sul-americana e espanhola com a tradição seresteira e trovadorística portuguesa. Na voz de Amália Rodrigues o fado pôde se transformar em produto de exportação e formou, durante todo o século XX, fãs ao redor do mundo.

Agora, alguns bons anos depois, talvez o suficiente para o fado perder sua força, aparecem novos fadistas, novos violonistas do estilo e novas vozes arrebatadoras. Dentre os nomes de destaque, a que possui o trabalho mais interessante e inovador é a intérprete portuguesa (radicada em Barcelona) Mísia. O trabalho de Mísia nos remete ao que há de mais tradicional no fado português. Os arranjos são extremamente caretas, mas são composições que soam modernas por conta das fusões com o tango e das letras muito bem escolhidas de grandes poetas portugueses e de escritores pop contemporâneos como José Saramago.

A interpretação da pálida cantora parece ter o poder de reunir o novo e o velho da canção portuguesa em um único trabalho. De toda a discografia de Mísia, um disco que merece destaque é Garras dos Sentidos, o quarto disco de sua carreira meteórica, lançado em 1998. Pelo ambiente das belíssimas composições desfilam os nomes de Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, Mário Cláudio, Lídia Jorge, Agustina Bessa-Luís, António Botto e José Saramago.

DVD - Oito e Meio

Por Thiago Mattar

Essa é uma das maiores obras-primas do cinema, Fellini em seu apogeu extremista de experimentações. O filme é um retrato meio autobiográfico, meio esquizofrênico do processo criativo que leva à elaboração de um roteiro e de uma obra cinematográfica, ao mesmo tempo é uma obra que fala do nada e do tudo. O próprio título escolhido para a película é uma confissão. Fellini estava procurando locações para o seu nono filme, disse aos jornalistas que começaria a rodá-lo em breve. Só que a verdade era que Fellini estava em crise criativa, o que o levou a fazer um filme exatamente sobre essa crise. Oito e Meio seria, portanto, o curioso título de uma obra “inacabada em processo”.

Todos os acontecimentos da vida do cineasta Guido Anselmi (Marcello Mastroianni – alter-ego de Fellini), as trivialidades, os casos amorosos, sua infância, seus medos e frustrações acabam atuando como memórias-protagonistas de uma história sem storyboard, uma história sobre um cineasta aclamado que está tentando ter uma ideia para seu novo filme, mas não consegue receber nenhuma iluminação. Na tentativa de enganar os produtores, os atores e amigos, Guido enrola até o último instante para revelar o argumento de sua nova obra-prima, o resultado é um dos filmes mais interessantes já feitos sobre a modernidade e o cinema de autor.

Se estivesse vivo quando a fita foi lançada, em 1963, Freud nunca estaria tão feliz. As teorias do pai da psicanálise recebem tratamento luxuoso nas mãos do cineasta italiano, através da relação que o cineasta retratado na tela trava com seu pai, sua mãe e as mulheres da sua vida vemos claramente que nada é tão abstrato assim no Oito e Meio de Fellini. Os postulados mais importantes da psicanálise de Freud e Yung sobre os desejos reprimidos e os sonhos estão ali. Tudo está ali, na sua cara, despejado em tons de cinza numa clareza solar.

Apesar do clima de sonho alucinado recheado de acontecimentos banais, o filme é um retrato extremamente lúcido sobre a linguagem cinematográfica. Por sua narrativa complexa, o filme é uma aula de montagem que reinventa a própria linguagem. Fellini recebeu o Oscar de melhor filme estrangeiro por Oito e Meio, e, hoje recebe louros de glória de jovens cineastas a cada nova geração. Não deixe de assistir Oito e Meio! A fotografia é esplêndida e as atuações são memoráveis. Um destaque especial para a trilha sonora, uma das mais reconhecíveis aos ouvidos, que foi desenvolvida por Nino Rota, o mesmo de O Poderoso Chefão.




ESPECIAL GUS VAN SANT #1 - LAST DAYS


Para estrear minhas postagens em 2010, começarei com um especial sobre Gus Van Sant. Serão três filmes, um por semana. Fique agora com Last Days, e desligue seu celular, por favor.

Por Guilherme Nasser

Foram 8 takes até valer o dolly out em que a câmera abre e mostra Blake ou Kurt pirando na salinha. O trilho não podia aparecer, a equipe sofria enquanto Gus deitado na grama olhava atentamente e com um sorriso cordial, não dizia uma palavra. Blake enquanto isso, com instrumentos em loop, me fazia não acreditar no quanto aquele plano longuíssimo era incrível.

Last Days é um filme monótono, parado, sonolento e que a cada cena eu arregalava os olhos sentava na borda da poltrona e falava "Nossa, que fudido, puta que pariu..."

É o melhor filme do Gus Van Sant, e um dos melhores que eu já vi. O filme que declaradamente é inspirado em Kurt Cobain, me colocou em uma atmosfera densa, cheia de tensão, e o melhor de tudo, essa atmosfera causada por retratos do cotidiano. Tudo de mais comum, em um garoto que se isola e tenta parar com as drogas, convive com amigos, mas vive sozinho. Em um estado de transe completo, nós acompanhamos Michael Pitt, se vestir com roupas femininas e caminnhar com uma espingarda sem motivo algum. Em sua melhor interpretação, Michael trabalhou por alguns anos esse projeto com Gus, e sugeriu algumas improvisações no roteiro. Roteiro esse, que foi sendo criado enquanto foi sendo sentido. O homem da lista telefônica virou ator por acaso, sua profissão real é "Yellowpages salesman" e foi aí que Gus teve a idéia de o chamar para representar a si mesmo no filme. Inclusive na cena em que ele atua, o diálogo foi totalmente improvisado na hora. Os atores resolviam mudar suas falas e sugeriam a Gus, substituir por histórias que realmente aconteceram com eles. Tendo em vista uma construção realista ao máximo, isso foi importantíssimo para o roteiro. Outra coisa, a maioria dos atores, se chama no filme como se chama na vida real.

Gus encerrou sua chamada "Death Trilogy" com Last Days, os filmes que aí entram são: Gerry, Elephant e Last Days.

Por falar em morte, depois que morre Blake, a cena que de tão tosca fica impressionante é o espírito saindo do corpo e descendo a escada. É a cena de humor do filme, é o momento em que você sorri de canto, e pensa consigo como é genial aquilo tudo.

Harry Savides, diretor de fotografia do filme afirma, que tem certa autoridade sobre Gus para mudar a decupagem na hora, caso sinta necessidade. Ele gosta de trabalhar com Van Sant pois não há manipulação de imagem, em Last days, por exemplo fica claro isso. Nos deparamos com sequências longas, planos parados, olhamos para onde quisemos, sentimos o que quisemos, entendemos, interpretamos, vivenciamos o que for que seja. As músicas melancólicas não entram em momentos tristes e as alegres em momentos felizes. Não há de maneira nenhuma essa manipulação, com certeza isso torna os fimes de Gus Van Sant realistas, e mais ainda, extremamente orgânicos.

No som, a trilha que não é Nirvana, graças a deus, Blake canta, antes de sua morte, "Death to Birth" música da banda Pagoda, de Michael Pitt. Essa cena é impressionante, pois por 5 minutos o plano fica estático enquanto Blake melancólicamente, alienadamente toca seu violão e o público.

E novamente em Last Days é explorado pela câmera o ponto de vista. Revemos as cenas de diferentes ângulos e diferentes referencias, o que causa no filme essa redundância de emoções. Sentimos do começo ao fim a mesma sensação passeando pelo estômago. A experiência estética de Van Sant + Savides é única.

Na oitava tomada, o trilho não apareceu. Finalmente Gus forçou a voz, lá de longe, e gritou: -Corta!

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Assista ao trailer:










Música Popular Brasileira - Silvia Machete

Por Thiago Mattar

Que o Brasil é um país de cantoras todo mundo sabe. O que nem todo mundo sabe é que elas estão cada vez menos originais e talentosas. Parece que o mercado fonográfico brasileiro não se cansa de investir em padrões repetitivos quando se trata de jovens-bonitas-sexys-sussurantes intérpretes tupiniquins. De vez em quando aparece alguém diferente, ou alguém muito esquisita. É o caso da Silvia Machete.

Essa carioca faceira que estudou na Sorbonne conseguiu fazer um estardalhaço com seu disco independente de estréia, Bomb Of Love. O disco é recheado de pérolas instantâneas, tanto de sua própria autoria (ponto fraco da maioria de suas colegas contemporâneas) como de suas regravações. Silvia também é artista performática e estudou numa escola de circo. Dessas experiências pessoais suas composições emprestam leveza, equilíbrio e inteligência. Outro detalhe importante que pesa sobre a maestria do trabalho de Silvia é a qualidade e desenvoltura presente em suas apresentações, elas são vibrantes, cheias de truques vocais e visuais.

O primor da qualidade das gravações desse disco é também mérito de seus parceiros e amigos cariocas. Os músicos que a acompanham são: Rubinho Jacobina (piano), Nelson Jacobina (guitarra), Domenico Lancellotti (bateria), Stephane San Juan (percussão), Rodrigo Bartolo (baixo) e Thiago Charbomez (trompete).

Eu recomendo ouvi-la de olhos abertos, bem abertos. Não estou recomendando que você compre o DVD, é só uma metáfora mesmo. Mas, se optar por comprar, não vai se arrepender. O trabalho dela é cosmopolita, uma mescla da batida negra da baixada fluminense com as cores nervosas das ruas de Nova York. Se você ainda não ouviu falar dela, conheça um pouco aqui:




Livro - Retrato do Artista Quando Jovem

Por Thiago Mattar

Ok, eu confesso que não consegui terminar de ler Ulysses, de James Joyce. Mas poucos realmente conseguiram terminar, é quase como aqueles livros que você nunca precisou ler de verdade pra achar realmente saber tudo sobre ele, seja sua importância para a literatura mundial, seu estilo ou sua ruptura com o tradicional. Arrisco-me até dizer que parece haver uma resistência dentro da própria vanguarda intelectual em apreciar a produção de vanguarda. Uma espécie de hipocrisia acordada em alguma reunião formal ao som de colheres de chá tilintando.

Certo, não estou aqui para tocar nesse assunto e nem discorrer especificamente sobre essa obra intocável (e aqui valem todos os sentidos da palavra) de Joyce. Estou mais interessado em indicar uma obra desse irlandês que realmente li. Não só li como gostei. Retrato do Artista Quando Jovem deveria ser lido por qualquer interessado em literatura, qualquer iniciado na arte da leitura e da apreciação dos grandes autores. Esse romance autobiográfico serve como uma verdadeira bíblia a quem está querendo escrever sobre sua infância, ou mesmo se esqueceu de como ela era.

Uma das obras mais marcantes na abordagem do desenvolvimento da consciência através da formação intelectual. Uma interessante análise da vida humana que comunica uma abordagem sensível e descritiva, características marcantes no autor. Para quem está querendo fugir do Joyce difícil, inacessível, essa obra é a melhor pedida dessas férias. Arrisque-se! Afinal, como me disse uma vez um grande poeta:

“não dá para ler tudo, leia um livro de cada autor.”

Ação, aventura e romance na medida certa


Por Juliana Monteiro

Quando vi todos os tipos de propagandas sobre o filme Avatar, a primeira coisa que me veio em mente foi "não vou ver isso", me irrita muito quando vejo esses filmes blockbusters gastando horrores em propaganda e sempre penso que isso os tornarão medíocres.

Mas fico feliz em dizer que me enganei. Mal acabo de sair do cinema e me vi obrigada a aparecer por aqui e falar um pouco sobre o filme, confesso que não sou muito fã de filmes de ficção científica, mas esse me impressionou, não pelo 3D, pois percebi que ver filmes em 3D ainda é uma grande bobagem, não muda muita coisa mas aumenta a sensibilidade do filme, parecendo que tudo está mais real.

O filme exibe uma beleza artística linda, cheia de detalhes e uma imaginação que lhe faz querer estar entro daquele ambiente, junto com os seres azuis que habitam naquele mundo totalmente diferente do nosso. Nos faz pensar, também, como destruímos nossas terras, afinal todo o verde que vimos no mundo Pandora, de alguma forma, mesmo sem os brilhos e sem os seres com o dobro de pernas que nossos animais, existiam em nosso mundo.

A paixão dos moradores desse mundo diferente, os Navi, nos envolve, o modo que eles admiram sua terra e a energia que nela vive é lindo. O filme conta com belas cenas de aventura, desde como montar em um animal voador incrivelmente perigoso, até como escalar arvores enormes. Sobre a ação, a guerra contra os maus (claro que são os humanos) e os bons (os Navi) é brutal, um com armas de fogo e aparelhos tecnológico, os outros com flechas, animais estranhos e amor pelo que estavam deixando por lá.

A língua nativa deles, Na'Vi, para quem gosta de uma cultura as vezes inútil, é uma mistura dos dialetos dos elfos de "senhor dos Anéis" com os dos Klingons, os alienígenas bélicos da saga "Star Trek" (obrigada Folha Online por essas informações), mesmo que na maior parte do tempo os Avatares falem inglês, uma das poucas falhas que encontrei no filme, acho ainda um absurdo americanos se recusarem a lerem legendas e assim destruírem uma parte da graça no filme.

Sobre o romance, não tenho nada a reclamar, é a presença de um amor incrível entre o humano paraplégico Jake Sully (Sam Worthington), protagonista do filme e a guerreira navi Neytiri (Zoe Saldana), ele aprendendo como é viver no mundo dela e ela aprendendo o que é amar um ser como ele, um humano veterano de guerra que só sabe destruir, uma criança irresponsável, como ela mesmo o denomina.

Quem ainda não foi conferir o filme os incentivo a irem, vale a pena, mesmo que o cinema esteja absurdamente caro (nem queira saber qual é o preço para ver um filme em 3D, se ainda não viu).


Música - TV On the Radio


Por Juliana Monteiro

Eu costumo me apaixonar por bandas que não sei descrever. Mais uma vez é isso que me aconteceu com TV On The Radio, uma banda americana que descobri de repente e me apaixonei por não conseguir decifrar que tipo de som eles faziam.

Com quatro álbuns lançados e alguns EPs, é difícil encontrar no Brasil para comprar um CD, mas quem ainda compra CD? Eu sei que parece até sacana falar assim, mas é a verdade, se eu ainda dependesse dos CDs para descobrir bandas, provavelmente estaria falida de tanto comprar coisas no eBay. De qualquer modo consegui escutar o som deles graças ao MySpace e simplesmente pirei. Um som eletrônico com misturas de rock alternativo, free jazz e soul. Uma batida que deixa qualquer pessoa que escute um pouco louco.

Não é o tipo de música de cantar junto, mas é o tipo de música que eu considero para deitar no chão, acender um cigarro (caso você fume), tomar algo alcoólico e ficar olhando para o céu cheio de nadas.

O primeiro album da Banda, não cheguei a escutar, logo o segundo, Ok Calculator, não é um dos melhores, para ser sincera se eu tivesse conhecido a banda por esse álbum, não teria gostado. Mas graças a Deus conheci a banda pelo Return to Cookie Montain, que conta com músicas incrivelmente perturbadoras e boas, como minha predileta "A Method", eu descreveria essa música como macabra pelo seu começo com assobios e o estilo da batida. E a música mais importante do CD "Wolf Like Me", que se não me engano foi trilha sonora do filme O Invisível. Além disso o CD conta com a participações de Nick Zinner (Yeah Yeah Yeahs) e David Bowie.

Logo o último CD, Dear Science, para mim é um dos mais geniais, não sai de meu celular e é uma das primeiras coisas que coloco para escutar quando quero desenhar, pintar e escrever, é o CD com mais batida e mais sonoridade, ainda com o tom maluco, mas muito mais trabalhado que os outros. Tão bem trabalhado que foi considerado o melhor álbum de 2008 pela Rolling Stone e por várias outras fontes importantes de música dos Estados Unidos e do Mundo. O Single desse CD é “Dancing Choose”, talvez a mais agitada do CD, mas as minhas duas prediletas ainda são “Family Tree”, que é uma das mais suaves e mais bonitas pela melodia, e depois “Shout Me Out”, que simplesmente me agradou de todos os modos possíveis, talvez pelo fato de ter sido a primeira música que escutei do novo CD, ainda no MySpace, antes do CD em si ser lançado.

Espero que gostem da dica e segue o site oficial e o MySpace da banda, onde você pode encontrar a maioria das músicas!

Site Oficial

MySpace


"Abraços Partidos" é bom, mas...


Por Guilherme Nasser

... é tranquilo. Dá-se claro para ver a marca de Almodóvar, mas para quem já assistiu "Má Educação", "Tudo Sobre Minha Mãe" e "Fale com Ela", vê se claramente a saturação da metalinguagem usada pelo diretor neste novo filme.

Abraços Partidos é o filme em que o espanhol acaba confirmando de vez, a substituta de Carmem Maura. Penélope Cruz, está como sempre incrível, apesar de não gostar de "Volver", não sei dizer o porque, apenas não me senti empolgado em nenhum momento, em Abrazos Rotos, me senti, mesmo com sono, bem interessado em todas os momentos do filme que traz sua fotografia colorida como Pedro fez em "Fale com Ela". Porém o novo filme de Almodóvar é preso no roteiro de uma forma que faz com que ele parece de certo modo superficial, digo isso sobre as cenas dramáticas em que os personagens parecem tentar um sofrimento maior do que a construção narrativa proporciona realmente.

O legal deste filme é o filme dentro do filme, "Garotas e Malas" mostra muito bem referências às comédias kitsch americanas dos anos 50 e serve como uma diversão do público e respiro também da quantidade de simbolismos. Como eu disse, a metalinguagem presente em Abraços Partidos cansa, e como.

Agora não se esqueça que Almodóvar construiu sua marca e seus simbolismos, faz muito tempo. O passo a passo é, veja os filmes do diretor desde os primeiros, o terceiro filme dele é uma das melhores comédias que já vi: "Maus Hábitos", é onde começa de verdade a crítica ao catolicismo presente em quase todos os seus filmes.

Eu diria que Almodóvar se acertou em "Carne Trêmula" de 97, depois disso só vieram coisas boas, até chegar no melhor dele -em minha opinião- "Fale com Ela", que é onde a fotografia não traz nada de novo, mas que dança conforme a música que é outra coisa fora do normal. Caetano Veloso participa do filme cantando ao público a música "Cucurrucucú Paloma". As trilhas e músicas espanholas causaram uma reflexão introspectiva que se acoplaram as belíssimas cenas de tourada . E tem muito mais que supera as expectativas, o roteiro (não por menos, venceu Oscar), atuações, e os simbolismos controlados, fazem de "Fale com Ela" uma obra-prima. Sem contar a cena do cinema-mudo, onde o homem entra dentro da vagina de sua mulher. É o maior simbolismo do filme, como é a melhor cena dele...

Antes de "Fale com Ela" Almodóvar lançou o filme em homenagem às mães, um dos filmes mais emocionantes dele, e espetacularmente bom "Tudo Sobre Minha Mãe" Depois disso, veio "Má Educação", genial. E aí, em 2006 chegou "Volver" e agora chegou "Abraços Partidos"...Eu diria que Almodóvar chegou ao vértice de sua parábola filmográfica entre os anos de 97 e 04.

Não veja Abraços Partidos sem ver o filet mignon de Almodóvar, por favor...

sábado, 20 de março de 2010

Música Popular Brasileira - Partimpim 2 (2009)

Por Thiago Mattar

Tem crianças na platéia? Com essa pergunta, Adriana Calcanhotto, travestida de seu heterônimo, Partimpim, prendia a atenção dos pequenos e dos grandinhos no show de seu primeiro disco que ensaiava uma nova linha de repertório dedicada à molecada sapeca, um repertório bem menos idiotizante que o típico cancioneiro contemporâneo dedicado a esse público. Além de Partimpim, outros poucos artistas apontam para uma nova direção nas composições infantis, um grupo que merece destaque é o Palavra Cantada, formado por Paulo Tatit e Sandra Peres, pioneiro em reunir grandes nomes da moderna música brasileira em parcerias dedicadas a criançada.

Vamos ao ponto central: o público infantil brasileiro foi condicionado a horas e mais horas de programação televisiva/musical inflamada de euforia e histerismo, exemplos: Sérgio Mallandro com seus gritos e pulos dignos de um cocainômano, Xuxa com suas coreografias sudoríparas para retardados, Eliana ensinando a usar os dedinhos, etc.

Em contrapartida, Adriana retoma um trabalho iniciado pela dupla Paulo e Sandra na tentativa de levar mais elegância e refinamento na escolha de repertório, mais placidez e serenidade na interpretação, uma forma de evitar que os “baixinhos” continuem sendo tratados como seres de baixo nível intelectual, incapazes de captar a força de um poema ou de uma bela melodia. O novo disco de Adriana soa quase como uma coletânea super cool bossa nova para bebês. Mas não é pra pôr ninguém na cama! É vibrante e inspirador.

Esse segundo trabalho não chega a ser superior ao primeiro, com suas regravações já clássicas de “Fico Assim Sem Você”, de Claudinho e Buchecha, e, “Ciranda da Bailarina”, de Chico Buarque e Edu Lobo. No entanto, Adriana continua investindo na mesma fórmula: pegar canções que estavam no inconsciente coletivo e resgatá-las com uma “pegada” mais soft. O disco novo tem regravações de canções imortalizadas por Caetano Veloso, Arnaldo Antunes, Roberto Carlos, João Gilberto e até Bob Dylan. Existem algumas inéditas também, mas não possuem a mesma força que as regravações.

Procure no YouTube e dê uma olhada no clipe de “Gatinha Manhosa”, música de Erasmo e Roberto Carlos, traduzida para o universo infantil.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Que tal uma coca-cola?

Por Camila Bichuetti


A Coca-Cola é uma das marcas mais conhecidas no mundo. Ela é consumida por milhões de pessoas todos os dias. Mas qual será o seu segredo? Como foi que tudo começou? Podemos considerar a receita desse refrigerante como uma fórmula sagrada. Entretanto, com o documentário “Mundo Cola” percebemos que a razão de tanto sucesso não tem relação com gosto e sim com a imagem.

Dirigido por Irene Angelico, o documentário traça o trajeto da Coca Cola desde os tempos em que ela era apenas um xarope medicinal até chegar ao patamar de uma das marcas mais poderosas.


A idéia de que: “Não basta tomar um refrigerante, tem que ser Coca-Cola”, exemplifica claramente o poder exercido por ideal de imagem a se consumir. Assim como também não basta ser hambúrguer, tem que ser McDonald’s.


As conquistas mercadológicas da Coca estão diretamente relacionadas aos ótimos publicitários, que cientes de que a devoção à uma marca não dura para sempre, tratavam de inovar e lançar novas campanhas atrativas. Um exemplo disso foi à garrafa saia funil, estilizada de acordo com a moda da época.


Para ter uma noção da dimensão do poder exercido por uma marca como a Coca-Cola na produção de símbolos foi a criação da versão moderna do papai Noel. São Nicolau, antes alto, magro, com ar severo, e vestido verde ou amarelo, passou a ser o gordo e bom velhinho alegre, com as cores vermelho e branco da Coca Cola.


Claro que surgiram outros refrigerantes parecidos com a Coca-Cola. Um deles é a Pepsi-Cola, que acabou tomando uma fatia do mercado. No documentário evidencia-se essa disputa entre Pepsi e Coca na luta por mais consumidores através de grandes investimentos em publicidade.

Em lutas como essas, escolha pela qual você opta assume um papel diferencial. Ou seja, as marcas – no caso o refrigerante – que você consome, dizem quem você é, e a que grupos você pertence. A partir desse documentário fica ainda mais claro que o que uma marca vende, na verdade, é a sua imagem.


Você pode assistir o documentário pelo Youtube - o vídeo está dividido em 9 partes. Coloquei o link para assistir a parte 1 e de lá você pode acessar as outras partes. Divirta-se.


Mundo Cola - Parte 1

Cream de la Crème


Por Leonardo Rodriges

Hoje, assisti ao DVD do festival de Crossroads de 2004 pela centésima vez (provavelmente sem hipérbole), e é muito aparente o amadurecimento de alguns músicos com o passar dos anos. Assistir a um Eric Clapton sorridente e sadio, mais velho, de shorts e tênis folgados, leva a algumas perguntas, se já se tem conhecimento sobre a vida do mesmo, sobre como é possível sobreviver a todo tipo de auto sabotagem que o homem pode passar, e ainda mostrar mais saúde do que um jovem de 20 anos de idade.

Clapton já foi membro dos Yardbirds, que foi o viveiro de grandes guitarristas como Jeff Beck e Jimmy Page, e gravou o album mais aclamado de John Mayall & The Bluesbreakers, "With Eric Clapton" (1966), mas o ponto alto de sua carreira foi a fundação da banda Cream, que marcou a década de sessenta, ao ponto de Hendrix publicamente declarar que era a banda que mais o fascinava na época. O Cream foi formado por Jack Bruce no baixo e Ginger Baker na bateria, além do guitarrista supracitado, como frontman. Como bons membros do rock britânico, não eram de sorrir muito para as cameras, não eram de fazer muita graça. Subiam ao palco, e faziam o que lhes era proposto e esperado: música de muita qualidade.

Infelizmente, o que parecia um supergrupo no palco, tinha fora dele um aspecto de "superdesgaste", "superestresse"... Super no fundo do poço. Clapton estava afundado em drogas e problemas pessoais, Jack Bruce se mantinha no cume de uma montanha afastada, onde só sopravam bons ventos (e só sopravam para ele), e Baker sofria colapsos e overdoses com frequencia. Os encontros dos três passou a ser meramente profissional, e apenas subiam aos palcos e gravavam por obrigação contractual. A banda durou o piscar de olhos de 1966, até 1969, quando lançaram o álbum "Goodbye Cream", fechando um ciclo importante, tanto para a história de Clapton, como para a história do Rock.

Dentre os sucessos do Cream, estão "Sunshine of Your Love", "Outside Woman Blues",uma versão aceleradíssima de "Crossroads" de Robert Johnson, "White Room" e "I Fell Free", que ainda são algumas das músicas mais pedidas durante os consertos atuais de Eric.

Hoje, Eric Clapton é um senhor, condecorado com o Título de comandante da Ordem do Império Britânico, Ativista de causas importantes como o combate ao uso de drogas, não bebe, não fuma, não faz nada que um verdadeiro Sir, não faria, a não ser que tocar guitarra melhor a cada ano que passa, esteja na lista de coisas que não se deve fazer. Ao início da década de 70, começou sua carreira solo e participou de grandes projetos ao longo dos anos, todos muito bem sucedidos e bem conceituados pela critica mundial. Pelo que parece, o talento de Clapton é como um bom vinho: quanto mais tempo passa, mais encorpado e de gosto mais refinado fica.


Um gole de Eric Clapton :
Cream - Sunshine of Your Love
Cream - Crossroads
Cream - White Room
Eric Clapton - Layla
Eric Clapton - Cocaine