Por Thiago Mattar
Tem crianças na platéia? Com essa pergunta, Adriana Calcanhotto, travestida de seu heterônimo, Partimpim, prendia a atenção dos pequenos e dos grandinhos no show de seu primeiro disco que ensaiava uma nova linha de repertório dedicada à molecada sapeca, um repertório bem menos idiotizante que o típico cancioneiro contemporâneo dedicado a esse público. Além de Partimpim, outros poucos artistas apontam para uma nova direção nas composições infantis, um grupo que merece destaque é o Palavra Cantada, formado por Paulo Tatit e Sandra Peres, pioneiro em reunir grandes nomes da moderna música brasileira em parcerias dedicadas a criançada.
Vamos ao ponto central: o público infantil brasileiro foi condicionado a horas e mais horas de programação televisiva/musical inflamada de euforia e histerismo, exemplos: Sérgio Mallandro com seus gritos e pulos dignos de um cocainômano, Xuxa com suas coreografias sudoríparas para retardados, Eliana ensinando a usar os dedinhos, etc.
Em contrapartida, Adriana retoma um trabalho iniciado pela dupla Paulo e Sandra na tentativa de levar mais elegância e refinamento na escolha de repertório, mais placidez e serenidade na interpretação, uma forma de evitar que os “baixinhos” continuem sendo tratados como seres de baixo nível intelectual, incapazes de captar a força de um poema ou de uma bela melodia. O novo disco de Adriana soa quase como uma coletânea super cool bossa nova para bebês. Mas não é pra pôr ninguém na cama! É vibrante e inspirador.
Esse segundo trabalho não chega a ser superior ao primeiro, com suas regravações já clássicas de “Fico Assim Sem Você”, de Claudinho e Buchecha, e, “Ciranda da Bailarina”, de Chico Buarque e Edu Lobo. No entanto, Adriana continua investindo na mesma fórmula: pegar canções que estavam no inconsciente coletivo e resgatá-las com uma “pegada” mais soft. O disco novo tem regravações de canções imortalizadas por Caetano Veloso, Arnaldo Antunes, Roberto Carlos, João Gilberto e até Bob Dylan. Existem algumas inéditas também, mas não possuem a mesma força que as regravações.
Procure no YouTube e dê uma olhada no clipe de “Gatinha Manhosa”, música de Erasmo e Roberto Carlos, traduzida para o universo infantil.
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