domingo, 21 de março de 2010

ESPECIAL GUS VAN SANT #2 - ELEPHANT


Por Guilherme Nasser

15 minutos é o tempo em que todo o filme se passa. Elephant é o retrato do massacre de columbine, mas o retrato artístico, se é que podemos dizer isso de um massacre. O negócio é que Gus nesta película prepara o expectador para uma explosão de sangue no final.
Elephant nada mais é que a absorção de problemas e dúvidas sobre si mesmo que giram em torno de cada personagem. O "american way of live" pressurizado em cada jovem que vivenciou toda aquela narrativa é o ponto x do filme.

Os estereótipos dos adolescentes americanos são os personagens desta história. O jogador de futebol americano bonitão, que namora uma menina, certamente fútil e exagerada, e que causa ciúmes em outras meninas, que passeiam pela escola, falando de shoppings, dietas e roupas da última moda. Garotas que almoçam e antes de ir embora, passam para devolver à comida em um vaso sanitário. Um garoto que observa tudo que acontece, é quieto, amigo de um outro que é um pouco mais descolado, o fotógrafo. A garota feia, que trabalha na biblioteca e sofre os atentados de repressão sobre não se encaixar na normalidade do que é ser uma garota americana. Os gays, claro, que se juntam para discutir o preconceito escroto dos estadunidenses, que apesar de ainda estar formando seu caráter, já carrega isso através de uma cultura social e familiar, de não conviver com as diferenças, que vêm implicita em sua personalidade. Os garotos Alex e Eric os que mais absorvem essas diferenças e que são protagonistas da chacina mais tarde, nada mais são do que vítimas. Segundo Gus, todos são vítimas, todos sofremos a pressão de ser alguém que precisamos impressionar os outros, o ser que somos é definido pelo que fazemos, e não como deveria ser, ao contrário.

Van Sant como em seus outros filmes posteriores, utiliza o ponto de vista, cenas são vistas de diversos ângulos, o que tira o foco em algum personagem, ou alguém que rege a história. Na verdade a câmera é o que rege a história, é como se o expectador regesse a história, nós acompanhamos os problemas, e nos sentimos na pele de cada um que ali está. No começo do filme temos um plano sequência gigantesco, com a câmera seguindo o jogador de futebol, e ao longo do filme temos essa câmera presente também. O que chega a nos dar impressão de um jogo de video game, que estamos jogando aquilo tudo em primeira pessoa. O filme realista de Gus Van Sant não é violento, não é tenso e não é sensacionalista, mesmo se tratando de um massacre, vemos aquilo tudo com uma certa tristeza. Um peso no coração e uma espécie de angústia que nos deixa pasmos, tristes e os assassinatos (14 alunos e 1 professor) são consequências de toda essa carga de emoções. Acaba de tornando normal e simples. O motivo de ser simples é óbvio. Os personagens Eric e Alex, não pensam duas vezes, eles não tem medo, aquilo é a vida deles. Aquilo é o que eles são, e o que eles são definem o que eles fazem, como deve ser.

O título do filme é baseado em duas coisas, a primeira é uma homenagem ao diretor Alan Clarke que fez um filme chamado Elefante, sobre a violência religiosa na Irlanda, no filme é usada a expressão "elefante na sala de estar" que significa as coisas que incomodam as pessoas, mas que elas fazem questão de ignorar. A outra menção é a uma parábola budista que conta a história de alguns monges cegos que ao tocar em determinadas partes de um elefante, e como nenhum conhece o animal e apenas tocam uma parte dele, cada um chega a conclusões diferenciadas sobre como um elefante parece ser.

Eu não vou falar detalhes sobre o erro de continuidade que existe no filme, porque acho que é uma areia no sapato de todos que amam o filme, inclusive eu. Afinal não tem como não amar Gus Van Sant, e seu filme Elephant. Cannes, em 2003 amou o filme e Gus venceu a palma de ouro.

Elephant é singular.

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