quinta-feira, 18 de março de 2010

Experiências com Lasar Segall

Por Juliana Monteiro

Não é sempre que uma mulher decide comprar guache para brincar de pintar, literalmente brincar, nada sério, só um pouco de música, uma folha em branco e pincéis que encontrei pelo caminho. Mas isso acontece comigo não só com guache, com outros produtos também, como carvão e giz pastel. Desde muito nova considero a arte uma brincadeira para mim, algo para relaxar, e, mesmo que não entenda nada a respeito de técnicas, já consegui criar algumas coisas legais.

Mas essa não é a história, a história é pensar que nessa mesma semana resolvi sair para ver o Museu Lasar Segall (Rua Berta, número 111, perto do metrô Santa Cruz), mesmo que este artista tenha se tornado um dos meus prediletos, nunca tinha tido a oportunidade de visitar seu museu, o máximo que conseguia ver dele era quando o MASP ainda deixava o quadro A Guerra logo no primeiro andar; dessa vez era diferente, eu ia realmente conhecer Lasar Segall, além de conhecer sua casa, seu ateliê, seus materiais.

À primeira vista o lugar me espantou, um pouco mal cuidado, com as paredes brancas um pouco escuras pelo tempo. Logo na entrada pude ver a exposição temporária dedicada à relação de Oswald de Andrade e Pagu com Segall e outros pintores como Portinari, mesmo que muito interessante, não me surpreendeu, um espaço pequeno demais e, na minha vaga opinião, uma montagem pouco trabalhada.

De repente, pensando que ia me arrepender de ter dado tanto crédito para o lugar, uma luz acendeu, para falar a verdade, o acervo permanente que acendeu em meus olhos, entrei na outra casa do lugar e finalmente pude ver o ateliê de Segall, não sabia se ficava só olhando aquele armário logo à frente, com todos os materiais que Segall usava intactos, antigos, livros com seus estudos de cores, pesquisas, rascunhos; aquilo fez meu queixo cair e minhas mãos coçarem, se não fosse proibido, provavelmente teria aberto aquele armário e fuçado em tudo, só para me sentir ainda mais em contato com Segall.

Na parede, em frente ao armário, eu encontrei fotos históricas, fotos tiradas naquele mesmo lugar, com Segall pintando um quadro, queria simplesmente por aquele momento estar naquela foto, vendo-o pessoalmente. Depois de ficar alguns minutos observando aquilo, entrei pelo corredor que me levaria para os quadros da exposição, o primeiro que vi foi A Dor (reprodução que ilustra esse post), uma linda e trágica imagem feita com carvão que, em pouco tempo, resolvi desenhar só para ter pelo menos uma cópia mal feita junto a mim.

Quanto mais andava, mais me surpreendia, podia ver todas as influências de Segall, desde a escultura negra e Cézanne à Manet. Depois, seus diversos quadros e esculturas com sua maior musa inspiradora, Lucy Citti Ferreira e, finalmente, seus diversos materiais: carvão, tinta óleo, grafite e o que me fez rir, guache.

Acho que foi nesse momento que lembrei daquele começo de semana, quando ainda pintava a guache e todos os desenhos que fiz naquela tentativa ficaram horríveis, ao ver os desenhos de Lasar Segall na minha frente pensei em como ele era magnífico, porque tudo que via por lá me chocava, nunca pensei que um material tão simples, até infantil, na mão de um gênio, poderia se tornar arte pura, cheia de detalhes e incrivelmente madura.

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