
Por Leonardo Rodrigues
Em um momento de felicidade do meu ensino médio, perambulando por um estúdio e outro em São Paulo com a banda de amigos, me deparei com uma figura com um sorriso enorme no rosto. Mas não era um sorriso normal, apenas com os dentes todos e gargalhadas arfadas. Esse senhor tinha nos poucos cabelos brancos que restavam, um rabo de cavalo, e uma (falar bagagem cultural seria pouco) "mala cultural enorme" nas palavras. "Ele foi ao Woodstock de 1969!" Meu amigo me disse. Eu não acreditei até ouvir 2 minutos de palavras pesadas de tanta experiência com música.
Esse ano o Festival de Woodstock, realizado na fazenda da família Yasgur, completou 40 anos, e a cada ano que passa os festivais estão mais distantes de ser como esse foi. A ilha de Wight proporcionou ao mundo no ano seguinte uma resposta britânica ao maior festival de artes do planeta, mas nem chamando um terço das atrações do festival americano, foi possível fazer algo tão grande, tão caótico e bonito ao mesmo tempo, ter uma aura tão bonita e limpa. O fato é que bons festivais musicais sempre existiram, mas nenhum chegou aos pés do Woodstock '69, apesar de projetos mil para fazer um festival tão bom quanto: Newport Festival, Isle of Wight Festival, Montreaux Jazz, Altamont Free Concert, Hollywood Rock, Rock in Rio (esse então, nem fazendo o Cristo Redentor tomar vinho do porto...)
Talvez fazer outro woodstock simplesmente não seja a intenção de ninguém, não faz mais sentido um festival como esse, não se fazem mais músicas com propósitos como as tais tocadas nas décadas de 60 e 70, não temos mais artistas como antigamente, e principalmente, não temos mais motivos como antigamente. A mobilização dos hippies e pacifistas no fim dos anos 60 era massiva, imponente sem deixar de ser frágil, como uma flor no cano de uma arma.
O senhor que estava falando conosco disse que não se lembra de ter ido, e nem de como foi embora do festival, mas se lembra de cada instante nos campos da fazenda em Nova Iorque, e que o ar tinha cheiro de música (apesar de eu sempre pensar que o ar teria cheiro de outra coisa por lá), todos estavam ali com sorrisos e pulando, cantando, dançando e rolando na lama, tomando banho nus nos lagos da propriedade, mas que os sorrisos não eram normais, eram sorrisos "de coração", desde os poucos seguranças até artistas e público.
Mas também, os menos saudosistas que me perdoem, mas você acordar numa manhã com a voz de Grace Slick do Jefferson Airplane cantando a primeira estrofe de Somebody To Love, é no mínimo surreal. Algo inatingível pelo cérebro de qualquer um que não tenha vivido a experiência. Imagina o que poderia ser, se as quatro e tantas da manhã, você pensando já estar cansado demais para ficar acordado, depois de muita chuva, lama e falta de comida, e a voz de Alvin Lee do Ten Years After ecoa por todos os auto-falantes mal dispostos nos 600 acres da fazenda: "Hello there...". Não é a toa que muita gente por conta da experimentação de drogas e da chance de estar fazendo parte daquilo tudo, não dormiu nem por um segundo. Simplesmente não havia motivo maior para não ficar de olhos e ouvidos atentos.
Algumas pessoas não entendem como jovens de 20 e poucos anos podem sentir tanta saudade, tanta falta e prazer em conhecer uma época que nem mesmo chegamos a conhecer. Mas só é preciso um tanto de sensibilidade e percepção musical e histórica, que você, que (ainda) não é um saudosista de plantão vai sentir uma ponta de vontade de ter sido uma daquelas 500 mil pessoas que participaram da maior exposição de arte da era de aquário já vivida.
Assistam:
Joe Cocker - A Little Help From My Friends
Ten Years After - I'm Going Home
Jefferson Airplane - Somebody To Love
Jefferson Airplane - White Rabbit
Santana - Soul Sacrifice
Em um momento de felicidade do meu ensino médio, perambulando por um estúdio e outro em São Paulo com a banda de amigos, me deparei com uma figura com um sorriso enorme no rosto. Mas não era um sorriso normal, apenas com os dentes todos e gargalhadas arfadas. Esse senhor tinha nos poucos cabelos brancos que restavam, um rabo de cavalo, e uma (falar bagagem cultural seria pouco) "mala cultural enorme" nas palavras. "Ele foi ao Woodstock de 1969!" Meu amigo me disse. Eu não acreditei até ouvir 2 minutos de palavras pesadas de tanta experiência com música.
Esse ano o Festival de Woodstock, realizado na fazenda da família Yasgur, completou 40 anos, e a cada ano que passa os festivais estão mais distantes de ser como esse foi. A ilha de Wight proporcionou ao mundo no ano seguinte uma resposta britânica ao maior festival de artes do planeta, mas nem chamando um terço das atrações do festival americano, foi possível fazer algo tão grande, tão caótico e bonito ao mesmo tempo, ter uma aura tão bonita e limpa. O fato é que bons festivais musicais sempre existiram, mas nenhum chegou aos pés do Woodstock '69, apesar de projetos mil para fazer um festival tão bom quanto: Newport Festival, Isle of Wight Festival, Montreaux Jazz, Altamont Free Concert, Hollywood Rock, Rock in Rio (esse então, nem fazendo o Cristo Redentor tomar vinho do porto...)
Talvez fazer outro woodstock simplesmente não seja a intenção de ninguém, não faz mais sentido um festival como esse, não se fazem mais músicas com propósitos como as tais tocadas nas décadas de 60 e 70, não temos mais artistas como antigamente, e principalmente, não temos mais motivos como antigamente. A mobilização dos hippies e pacifistas no fim dos anos 60 era massiva, imponente sem deixar de ser frágil, como uma flor no cano de uma arma.
O senhor que estava falando conosco disse que não se lembra de ter ido, e nem de como foi embora do festival, mas se lembra de cada instante nos campos da fazenda em Nova Iorque, e que o ar tinha cheiro de música (apesar de eu sempre pensar que o ar teria cheiro de outra coisa por lá), todos estavam ali com sorrisos e pulando, cantando, dançando e rolando na lama, tomando banho nus nos lagos da propriedade, mas que os sorrisos não eram normais, eram sorrisos "de coração", desde os poucos seguranças até artistas e público.
Mas também, os menos saudosistas que me perdoem, mas você acordar numa manhã com a voz de Grace Slick do Jefferson Airplane cantando a primeira estrofe de Somebody To Love, é no mínimo surreal. Algo inatingível pelo cérebro de qualquer um que não tenha vivido a experiência. Imagina o que poderia ser, se as quatro e tantas da manhã, você pensando já estar cansado demais para ficar acordado, depois de muita chuva, lama e falta de comida, e a voz de Alvin Lee do Ten Years After ecoa por todos os auto-falantes mal dispostos nos 600 acres da fazenda: "Hello there...". Não é a toa que muita gente por conta da experimentação de drogas e da chance de estar fazendo parte daquilo tudo, não dormiu nem por um segundo. Simplesmente não havia motivo maior para não ficar de olhos e ouvidos atentos.
Algumas pessoas não entendem como jovens de 20 e poucos anos podem sentir tanta saudade, tanta falta e prazer em conhecer uma época que nem mesmo chegamos a conhecer. Mas só é preciso um tanto de sensibilidade e percepção musical e histórica, que você, que (ainda) não é um saudosista de plantão vai sentir uma ponta de vontade de ter sido uma daquelas 500 mil pessoas que participaram da maior exposição de arte da era de aquário já vivida.
Assistam:
Joe Cocker - A Little Help From My Friends
Ten Years After - I'm Going Home
Jefferson Airplane - Somebody To Love
Jefferson Airplane - White Rabbit
Santana - Soul Sacrifice
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